Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

O pai

Damasceno viajou de avião até Teresina e dali prosseguiu de carro por mais duas horas até a cidadezinha onde Suzana havia nascido dezesseis anos antes. Quando viu a fileira de casinhas brancas mal caiadas, já estava exausto. Pensava como era irônico que a inimiga pública número um do país, a maior ameaça da ordem pública estabelecida, tivesse saído do meio daquele nada, um rincão esquecido até por Deus. Admirava Suzana cada vez mais. Agora que rastreava sua origem e história pessoal, percebia seu brilhantismo e tenacidade. Só mesmo uma moça brilhante e tenaz poderia ter saído dali e se tornado a líder do principal grupo de resistência ao governo militar. Damasceno localizou a casinha que desejava. A porta frontal ao centro e as janelas laterais estavam todas abertas. Bateu palmas e um menino de uns doze anos veio lhe atender.
_ Boa tarde. Procuro o senhor Antônio Vieira de Souza. Sou o Dr. Damasceno.
O homem que encontrou na sala estava serenamente sentado em sua cadeira de balanço, fumando um cigarro de palha. Estendeu-lhe uma mão grossa e áspera. Seus olhos brilhavam de um modo inteligente, eram a única coisa que parecia viva em seu rosto tomado pelas rugas.
_ Senhor Antônio, venho lhe falar sobre sua filha Suzana.
_ Não tenho filha, apenas cinco filhos machos.
_ Olhe, seo Antônio, sei que o senhor expulsou Suzana de casa, mas agora não é hora disso. A vida dela corre sério risco na prisão.
_ Deus dá a cada um a paga que merece.
_ Se nós provarmos que ela tem apenas dezesseis anos poderemos lhe salvar a vida.
_ O demônio tem muita idade, muito mais do que o senhor pensa.
_ A sua filha, seo Antônio, não é nenhum demônio. Ao contrário, é uma moça admirável. O senhor deveria se orgulhar dela. Eu mesmo, se tivesse uma filha...
_ Olhe seo moço, já lhe disse que não tenho filha viva. Se o senhor seguir falando disso, vou pedir a sua licença de sair da minha casa.
Dessa forma, a viagem ao Piauí provou-se inútil e Damasceno retornou derrotado a São Paulo.

Segunda-feira, 17 de Março de 2008

A interpretação: o casamento interior

No sonho relatado na postagem anterior, parece se encenar um casamento interior ou hierogamos. A princípio houve uma correspondência de quinze anos entre mim e um homem que vivia longe, talvez preso. O número quinze corresponde a dois períodos de sete anos mais um. Como sabemos, o sete sinaliza um ciclo completo de tempo. Por exemplo, no sonho do faraó que José interpretou, sete vacas gordas são seguidas e devoradas por sete vacas magras. José interpretou essa imagem como a representação de dois estágios de sete anos sucessivos, dois ciclos completos. Aqui, no meu sonho, também houve a passagem de dois ciclos completos de sete anos e agora se inicia um terceiro ciclo ainda no primeiro ano. Começa uma nova fase e as duas pessoas que se correspondiam à distância podem se encontrar. Eu e meu animus ou lado masculino podemos nos encontrar e abraçar depois de uma relação distante. Esse encontro se dá na universidade, pertencente à esfera do intelectual e, portanto, do masculino. Foi na universidade que aprendi a me relacionar melhor com meu animus, que encontrei um espaço de expressão para ele. Na hora do abraço, ele ainda não me enlaça porque não tem braços. Os braços são o nosso potencial de ação, de realização. Nesse primeiro momento do sonho, o meu animus ainda está ferido, sem apresentar um potencial de ação pleno. O próprio sonho traz a cura para isso, pois há uma inversão de papéis, e eu passo a ser o homem e ele passa a ser eu. É aqui que o casamento interior se realiza especificamente. A importância do evento psíquico é ressaltada pela curiosidade (e por que não reverência?) de todos que estão na sala de aula cujos olhares se voltam para nós. Então, o animus aparece restaurado e, de uma posição inferior e mutilada, ele passa a ser o protagonista do sonho. Passeamos juntos na praça como namorados. Provavelmente isso quer dizer que a minha relação com meu animus melhorou, ele agora encontra uma expressão mais livre e um relacionamento mais sadio e próximo comigo. Somos namorados ou, como disse a secretária, "isso sim é que é relacionamento" e não um namoro à distância por correspondência. A praça é uma imagem do Self ou centro da personalidade ou psique. Ali os opostos passeiam em equilíbrio. A estranha escultura de um gigantesco soro mostra que a personalidade está sendo alimentada por algo que vem do alto (o soro está pendurado nas árvores e irriga o gramado). Tomamos soro quando estamos nos recuperando de alguma doença. É o que parece acontecer aqui: do alto vem esse alimento-remédio que irá restaurar o equilíbrio psíquico. A troca entre as luzes do céu e da terra (poste) encena mais uma relação entre os opostos, que alternam de lugar. A mulher vê nesses sinais a revelação de que fim do mundo está próximo, mas o homem sente que é algo bom e não ruim que está a caminho. O fim de uma fase de minha vida se aproxima, mas há a sensação que o que virá é algo bom porque os opostos estão finalmente equilibrados dentro da vida psíquica.

Domingo, 16 de Março de 2008

Sonho: o casamento interior

(Do meu diário de sonhos, 16/03/2008)

Sonhei que durante quinze anos me correspondia com um homem que vivia longe, talvez preso em algum lugar. Um dia o encontrei na universidade e o abracei no corredor. Eu o abraçava, mas ele não me enlaçava com seus braços, talvez porque estivessem quebrados ou amputados. Quando nos abraçamos no corredor, o professor e os alunos da sala de aula olham curiosos para nós. Saímos dali, mas houve uma inversão. Sou o homem agora e a mulher é uma moça loira. Quando passamos pelas secretárias no balcão de atendimento, uma delas diz: "Agora sim, isso sim é relacionamento". Digo: "Sim, mas foi com ela que me correspondi por quinze anos" - e aponto para o peito da moça. Vamos passear na praça, que é uma mistura da praça central de Sorocaba, da praça da Sé e da praça do relógio da USP. A praça parece ter estranhas esculturas. Uma delas é um saco de soro gigantesco que fica pendurado numa árvore e irriga o gramado. Quando estamos andando na praça, eu olho para o céu azul e vejo duas luzes iguais às luzes do poste. Digo para minha companheira: "Olha que engraçado, as luzes do poste estão no céu". Ficamos observando isso e essa troca entre as luzes do céu e do poste ocorre mais umas duas vezes. Ela diz: "Nossa, tem acontecido coisas muito estranhas. Estou me preparando" - ela quer dizer de alguma forma que o fim do mundo está próximo. Digo: "É, mas eu sinto que não é nada ruim, é uma coisa boa que está para vir".

Sábado, 15 de Março de 2008

A líder dos rebeldes

Principal líder dos rebeldes seria menina de quinze anos, era o que dizia a manchete do jornal. Por essa simples declaração, o editor e o jornalista da matéria tiveram que prestar um tenso depoimento no Departamento de Polícia Civil e quase se meteram seriamente em apuros. O que os salvou não foi o tom de hipótese da frase, mas as boas relações do dono do periódico, que era casado com uma sobrinha do Ministro das Forças Armadas. Para a polícia, Ana Cristina Borges Silveira tinha mais de vinte e um anos, sendo, portanto, imputável pelos seus crimes. Semanas depois da publicação da notícia, a Ordem dos Advogados voltou à carga e afirmou, no entanto, que essa identidade e a certidão de nascimento que a letigitimava eram falsas. Não havia registro dela no tabelião de sua cidade. É verdade que também não havia sido encontrado nenhum registro da suposta certidão verdadeira, provavelmente roubada do cartório, mas as evidências de que Ana Cristina não seria Ana Cristina, mas Suzana Réia Vieira de Souza tornavam-se cada vez mais consistentes. Assim, a Ordem exigia que seus representantes tivessem acesso à prisioneira e aos seus depoimentos. Numa manhã bem fria de quinta-feira, o Dr. César Augusto Damasceno entrou na carceragem do Presídio Municipal e encontrou ali uma Ana-Suzana de expressão impassível e olhar penetrante. Tinha diversos hematomas no rosto, os lábios estavam partidos em vários lugares, a roupa, o cabelo e a pele pareciam bastante encardidos, mas ainda sim ela fumava serenamente um cigarro num gesto que pareceu extramente normal a Damasceno. Não conseguiu inferir se tinha mesmo quinze ou vinte e um anos. A figura que tinha diante de si parecia pairar acima de qualquer idade.
_ Bom dia, sou o Dr. Damasceno, fui enviado pela Ordem dos Advogados para representar os seus interesses. Poderia me dizer seu nome completo?
_ Ana Cristina Borges Silveira - pronunciou lentamente as sílabas entre as baforadas.
_ Existem indícios seguros de que essa pessoa não existe. Seu nome não seria Suzana Réia Vieira de Souza?
_ Se há alguém que não existe é essa pessoa que o senhor acabou de mencionar.
_ Então a conhece?
_ ...
_ Veja bem, se pudermos provar que a senhora é de fato Suzana Réia, poderemos tirá-la daqui. Na verdade, todo o processo seria anulado, pois ficaria provado que a senhora é menor de idade.
_ O senhor acha que sou menor de idade?
_ Acho que podemos provar que sim. A senhora alega ter quantos anos?
_ Tenho idade suficiente pra saber o que faço e pra pagar por isso também.
_ Tudo isso é uma grande tolice. Se prosseguir, poderá inclusive ser morta.
_ E o senhor acha que, se afirmar ser outra pessoa, eles me poupariam a vida? Nada vai salvar minha vida, doutor, já estou condenada. Não perca seu precioso tempo comigo.
O cigarro de Ana-Suzana acabou, ela se levantou sem se despedir do advogado e o guarda abriu a porta para que voltasse ao interior da prisão. Damasceno ficou atônito e confuso...

Sábado, 8 de Março de 2008

A perigosa terrorista

Levaram-me um dia para vê-lo. Entrei no quarto do hospital e vi aquela massa inchada, verde e disforme que um dia havia sido o corpo dele se distender em espasmos regulares e barulhentos. A respiração proporcionada pela máquina nada tem de semelhante com a natural. Ainda tive tempo e estômago para pensar isso. Espanto-me agora que pensasse tanto, em tantas coisas diferentes e com tanta lucidez. Mas sentia naquele momento que a mente era a única coisa que ainda me pertencia e descobri que isso não era pouco. Não estava tão morta como gostaria de estar. Queriam dobrar-me. Queriam que, ao vê-lo semi-morto em cima daquela cama de hospital, ficasse comovida, arrependida ou pelo menos aterrorizada e aceitasse a proposta de ir à televisão fazer um pedido público de desculpas. Sim, meu nome é Vera Miranda, sou uma perigosa terrorista que atentou contra o país e agora venho pedir perdão ao povo brasileiro. Uma moça de vinte e cinco anos algemada, chorosa e derrotada na telinha de milhões de lares era o trunfo que desejavam, a deliciosa vitória por que aguardavam. Era a resposta que queriam dar à sociedade depois da humilhação que sofreram quando seqüestramos aquele avião. Já tinham tentado outras técnicas para me persuadir. Nem me importava mais com o que me infligiam diretamente ao corpo. Porém, quando fizeram todas aquelas coisas com minha mãe diante de mim, estive prestes a dizer que sim, mas ela mesma me implorou para jamais fazer isso. Não ir à TV, não desempenhar o papel da Madalena arrependida tornou-se o objetivo principal, se não o único, de minha vida, a única razão pela qual ainda lutava. Vê-lo morrendo não causou em mim dano maior do que tudo o que já enfrentara. Acho que não senti mesmo nenhuma emoção. Olhei para aqueles olhos fechados com esparadrapos e pensei apenas como era irônico que achassem que era meu marido. Tinham trocado as identidades dos dois homens e, mesmo semanas depois de termos sido presos, não tinham se apercebido disso. Sorri internamente, um dos pequenos prazeres que me restavam. No dia em que caímos, meu marido tinha encostado o revólver serenamente na têmpora e atirado sem dizer sequer uma palavra um pouco antes da rendição. Vi seu corpo estendido no chão da aeronave pela última vez quando passei com as mãos para o alto. Na verdade, fiquei feliz porque para ele tudo acabava ali. Não sei por que não o segui em seu gesto. Tive tempo para isso e sabia bem o que me aguardava. Mas mesmo assim prossegui, decidindo que podia aguentar a tortura. O homem que estava diante de mim no hospital tinha me amado um dia, contudo. Era um amor misturado ao ódio por ter sido preterido. E várias vezes durante nossas ações ouvi dele palavras duras, ásperas, doloridas. Em mais de uma situação, agiu ostensivamente contra mim e meu marido, maldizendo-nos para os outros membros da organização. Agora estava ali, mais indefeso do que jamais estive. Debruçei-me sobre ele e o beijei na boca, um beijo demorado e nervoso. Senti os guardas se retesarem na porta, seguros de que a estratégia tinha dado certo. Levantei-me e saí escoltada por eles. Diante do camburão, um dos tiras me perguntou mais uma vez se tinha mudado de idéia. Balancei negativamente a cabeça. Isso significava voltar para o pau-de-arara e talvez morrer embaixo de pancada, mas aceitei meu destino. Nunca fui à TV. No entanto, sobrevivi para contar essa história.

Sábado, 1 de Março de 2008

Viva Bernini

Era moreno, franzino e talvez feio, mas tinha em si uma paixão tão grande que poucas pessoas suportariam. Sendo genial desde pequeno, era normal que o tratassem como a um deus. Ainda em tenra idade deixou os poderosos de seu tempo boquiabertos com seu talento. Na puberdade, período em que os homens comuns normalmente não têm poder nenhum, ele se acostumou a ver as pessoas lhe abrindo a passagem em suas jornadas cotidianas por sua cidade natal. Davam-lhe o peixe na feira de bom grado sem que tivesse que pagar. Davam-lhe o melhor assento na igreja lotada. E não lhe maldiziam quando não retornava os efusivos cumprimentos que recebia. Era considerado melhor do que os outros, isso é certo, talvez até por Deus, que realmente lhe deu um talento muito acima da média e as melhores condições possíveis para desenvolvê-lo. Estranho eu amá-lo assim, com essa distância de tantos séculos entre nós. Ainda mais sabendo que não era gentil, mas arrogante, não era calmo, mas tempestuoso, não era abnegado, mas ciumento e possessivo. Provavelmente se o tivesse conhecido, o odiaria. Não poderia nem sequer suportar estar em sua presença. Afinal, como conseguiria eu mirar nos olhos um homem que mandou retalhar o rosto da amante e quase matou o irmão por pura vingança? Teria que ter esquecido tudo o que prezo na natureza humana para poder lhe apertar as mãos. No entanto, amo-o, vendo a magia que se esconde em suas obras, no mármore que, obediente, cede a todos os seus desejos e se transforma em tudo o que sua mente imaginou. Da superfície resistente e informe da pedra branca imaculada, surge a maciez da carne feminina sendo tocada pelos dedos ansiosos do homem-deus que vai tomá-la à força. Da imobilidade serena da rocha surge o tecido revolto do hábito de uma freira em êxtase diante do mais belo anjo do Senhor. Da dureza sem fim daquilo que não está vivo surge uma maravilha de dedos e cabelos transmutando-se em galhos e folhas. Não há limites para o mago encantador do mármore. Mesmo não sendo bom, nem generoso, nem nobre, nem magnânimo de caráter, tem toda a admiração dessa pobre mortal, que não compreende os desígnios da divindade nem a sua distribuição aparentemente injusta de dons por entre os homens.

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Mais um sonho

Como estou adoentada, febril e acometida por uma estranha alergia que fica migrando para várias partes do meu corpo, tornando a pele vermelha, levantada, irritada, ardente e fervente, vou entregar o blog nas mãos do inconsciente mais uma vez e relatar um sonho que tive hoje.

Estava na faculdade de filosofia e o professor era o mesmo que dava aula de física quando eu estava no colegial. Ele tinha resolvido fazer algo diferente e, em vez de filosofia, teríamos aula de gravura no laboratório da faculdade de artes da nossa universidade. Teríamos que fazer gravura em metal. Eu pensava: "Que idéia imbecil, como é que um monte de gente que não sabe nem desenhar vai fazer gravura em metal? A placa de cobre é um meio que resiste ao trabalho das ferramentas e quem não tem um belo controle do traço dificilmente consegue fazer algo que preste". Meus pensamentos eram mais ou menos esses. Tive vontade de levantar a mão e relatar minha experiência anterior como estudante de artes e como eu, mesmo sendo bacharel em gravura, não era capaz de fazer uma gravura em metal digna do nome. Achava que os alunos de filosofia também não iam conseguir fazer nada. Mas acho que não me pronunciei. Ficou tudo apenas na minha cabeça, na minha vontade. Durante a aula de filosofia-gravura, não fiz nenhuma gravura, como era de se esperar. Fiquei só conversando e reclamando. Daí voltamos para a sala de aula normal e o professor começou a chamar a gente pelo nome. Tínhamos que ir mostrar nossos trabalhos. Saí fugida da sala antes que chamasse o meu para não ter que passar pelo constrangimento de confessar que não tinha feito nada. Quando estava fugindo, lembrei-me que tinha esquecido alguma coisa na sala, algo importante como a bolsa ou o que valha. Mas não voltei.

Ainda não interpretei o sonho porque estou muito cansada e sem vontade de fazer nada. Acho que nem era para escrevê-lo aqui, mas não sou senhora de mim hoje.

Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

Sonho

Subo uma ladeira junto com mais duas pessoas no que parece ser o centro de São Paulo. A noite começa a cair. Um boteco à minha esquerda está fechando suas portas. Na frente dele, há pelo menos uma dúzia de crianças de rua. São todas muito pequenas, provavelmente menores do que a idade que têm, sujas e esquálidas. Parecem crianças que acabaram de sair de um campo de concentração. Elas me vêem passar agarrada à minha bolsa. O homem que está comigo aperta o passo, desvia das crianças, e, quando dou por mim, estou sozinha no meio delas. Sinto uma espécie de pavor. Procuro a ajuda de um menino mais velho que foi quem fechou a porta do bar e que não é maltrapilho como os outros. Ele me diz que, para não ser roubada, vou ter que dar uma "ajudinha". As crianças me olham malévolas, me pressionam com expressões de intimidação. Abro a bolsa e dou a elas uma nota de cinco reais, o que me parece ser uma grande quantia. Não é sem alguma dor que lhes dou essa cédula. Porém, sei que tenho comigo mais dinheiro que isso e me parece melhor perder uma parte do que tudo. Uma outra criança me "pede" mais alguma coisa que não lembro agora e lhe dou. Por fim, uma menina quer o enfeite azul de plástico que há na minha bolsa. Tenho pena de estragar a bolsa, mas arranco o enfeite com toda a força e lhe entrego. Depois que ganham essas coisas, as crianças parecem mais boazinhas, sorriem, acenam para mim e me deixam ir. Estou finalmente livre delas.

Esse é o segundo sonho em que sou roubada por crianças. No sonho anterior, um trombadinha no Rio de Janeiro me roubava a bolsa e a pasta e me deixava sem dinheiro e documentos em plena "cidade maravilhosa". Aqui a coisa não foi tão drástica, apenas um roubo consentido, uma perda menor. Amanhã não haverá uma postagem com a interpretação. Tive esse sonho ontem e, durante todo o dia, pensei no seu significado, que só ficou claro para mim à noite num lampejo rápido. Tenho agora uma boa idéia do que se trata, mas me custa admitir. Deixo, então, aos meus leitores o sonho praticamente em estado bruto. Quem quiser interpretá-lo que fique à vontade. Lendo-o agora, parece-me evidente o seu sentido. Será que todos terão a mesma impressão?

Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Número três

lhe faço um afago
aninhada no
colo feito fosse
alguma filha sua

melhor pouca poesia que nenhuma

Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Número dois

poesia é para poucos
perereca
palavra pula, salta
pára e não é ela

Número um

observo a flutuação
furo o verbo
aparece mágica a palavra
no verso da página

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

O livro do prazer cotidiano

O sol do meio-dia refletido nas pastilhas do prédio fronteiriço.
O som repetitivo e imperioso da serra na loja de móveis.
A máxima cautela ao se pisar nos tacos soltos do piso.
A coca-cola gelada que se bebe ao acordar e a dor que ela causa.
O besouro que entra zumbindo pela janela e se debate na parede.
O fio entrelaçado e esticado do varal de nylon.
A caixa de fósforo que descansa sobre o livro de capa laranja.
A sala vazia de seus moradores.
O cobertor de lã dobrado sobre o lençol de algodão.
O beija-flor que pára pensativo no muro de concreto.
A intensa necessidade de estar viva e inteira.
A libertação que custa a chegar.

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Lilith

imediatamente me recolho ao início ao cerne ao ponto do qual não posso me afastar por muito tempo a vida é curta dizem-me mas eu a acho longa demais como os cabelos de uma criatura mágica e subterrânea uns cabelos feitos de fios brilhantes de metal talvez sejam de cobre reluzente à luz desse sol incendiário uma pessoa nua e morta em cima da mesa uma mulher jovem ainda e a pele dela é tão transparente e fina que posso ver as veias azuis e roxas que um dia pulsaram cheias de sangue agora está perdida para sempre mas seu corpo estranhamente não se decompõe se recusa a desaparecer libertá-la da memória de ter sido é pior do que a fotografia de uma defunta pendurada na parede nessa coitada a própria carcaça é a testemunha da vida estúpida que teve o porão é deserto e escuro cheio de labirintos que percorro arrastando a cauda de meu belo vestido negro tudo em mim é negro como um corvo e é com um corvo que me pareço sei exatamente quais são os dias que me restam uma fileira virtualmente interminável de sofrimentos mas não me apavoro viverei como uma princesa má desterrada para sempre nessa torre levanto o véu que me cobre os olhos cujas íris se mexem como se estivessem cheias de areia movediça sou aquela que conhece todos os mistérios uma gota de meu veneno é o bastante para liqüidar um exército inteiro os homens estremecem diante de mim seja de dor ou de prazer sim também sou capaz de dar alegrias se essa for a minha vontade mas jamais acariciei a carne dos que me torturaram ou tentaram me dominar não pertenço a ninguém sou a filha do sol negro e da distante lua fria

Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

O ancestral

No zoológico, o pequeno macaco cinzento puxa os pêlos da cabeça até quase arrancar. Ele gesticula em movimentos que às vezes me parecem familiares, outras vezes bruscos e surpreendentes. Poderia dizer que é até meigo o seu jeito, tenho mesmo vontade de aninhá-lo em meu colo, como se tivesse nascido de mim. Sinto aquela espécie de encantamento que tem uma pessoa ao ver um bebê, uma cria da sua espécie. Alguém que está comigo aparentemente vê as coisas de outro modo, tem uma idéia quase cruel e lhe joga água fria, rindo. O macaco se vira, levanta o traseiro e indica que vai fazer xixi em nós, que corremos. Mas não faz e me pergunto por quê. Sentiria por nós alguma consideração? Volto a olhar para ele, seu olhar parece velho e cansado, o que não deixa de ser curioso porque não é muito maior que um filhote. Mas, em matéria de tempo, eu e ele somos mais do que essa carcaça individual que carregamos. Somos também uma moldura, um quadro que representa um momento singular de um processo. Mirá-lo é, de alguma forma, contemplar o passado da humanidade. É olhar para nosso início e simultaneamente para nossa velhice, para o tempo em que éramos tão jovens que não sabíamos andar e tão velhos que não conseguíamos ficar eretos. Esse macaco está enterrado lá trás dentro de nós, é o esqueleto guardado no armário, o ser imperfeito e o grotesco que já fomos. Talvez fôssemos melhores.

Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Ontem e hoje

Ontem entro na sala de janelas fechadas, vejo os móveis cobertos com lençóis brancos, fantasmas volumosos de uma vida encerrada, tudo é quieto e sinistro nesse recinto de ausências, sento-me na cadeira que ainda está de pé, assumo meu posto, meu trono nesse reino, endireitei as costas no assento, coloquei as mãos sobre as pernas fechadas para parecer ainda mais grave e séria como uma verdadeira rainha, fechei os olhos lentamente, como se me doesse abandonar o que via, e adentro imediatamente um outro espaço em que sou livre e corro por pastagens infinitas, lindas colinas verdejantes sem viva alma além de mim, desço uma ladeira quase voando de alegria, mas parei diante de uma grande árvore de folhas escuras, encostei uma dessas folhas no rosto e ela era macia como veludo, no topo avistei um belo pássaro a cantar, como são os caminhos do céu, pássaro divino?, ele gorjeia ainda mais lindamente e o sigo mentalmente em extensas jornadas por entre as nuvens, quero voar contigo, finalmente interrompe a melodia, o vôo dos pássaros só é permitido aos eleitos, diz, lembrei-me de hoje, em que estava trancada na velha sala, fui arrastada de volta, e sepultei-me por fim.

Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Interpretação dos sonhos

Vou fazer uma coisa diferente dessa vez e propor uma interpretação astrológica para os meus sonhos narrados na postagem abaixo. Na fascinante personagem do primeiro sonho, parece estar retratada a minha Vênus em Áries na casa 5. Todos sabem que Áries é um signo regido por Marte, o senhor da guerra. Estando Vênus no domicílio desse deus marcial, ela toma emprestadas algumas de suas características. É por isso que se reconhece como uma guerrilheira e se porta com extrema coragem, atacando seu inimigo sem titubear na primeira ocasião que se lhe apresenta. Também é preciso que se diga que Vênus está exilada em Áries, isto é, está numa terra que lhe é estranha, distante do que lhe é próprio. A menina do sonho está numa aldeia ocupada por um exército inimigo, o que já daria a idéia de que vive em meio à guerra, ao conflito, elementos que originalmente não combinam com a deusa do amor e do prazer. Mas isso ainda não é o principal. Ela vive entre cães e gatos, num canil e não numa casa. Isso pode significar que é uma forasteira nessa terra, alguém sem família, sem a companhia de seus semelhantes. Vive exilada e solitária numa aldeia estranha e ainda por cima invadida por inimigos hostis. E por que 14 anos? Posicionada na casa 5, ela parece ser a eterna adolescente, a eterna filha, e, estando sitiada em Áries, um signo de inícios e juventude, parece não haver chance de se tornar uma mulher madura. Consigo imaginá-la com seus cabelos ruivos e curtos, seus olhos injetados de vermelho, seu corpo ágil protegido por uma armadura leve e escondido num manto esvoaçante, de pé, assistindo atenta ao desfile e esperando a melhor chance para golpear seu oponente. Devo dizer também que o caráter andrógino de sua figura vem com certeza de sua oposição a Urano, o que a torna ainda mais estranha, a verdadeira imagem da estrangeira. Come um fruto verde espinhoso que talvez ninguém mais comeria, segue acompanhada apenas por animais, é, sem dúvida, a diferente nesse meio em que está. Essa Vênus é a parte de mim mais corajosa, aquela que é capaz de tudo, que jamais se deixará dominar por homem algum, que manterá sua independência e autonomia até nos momentos mais difíceis.

Quanto ao segundo sonho, me parece que está representado ali um conflito entre Plutão e Saturno. Os senadores romanos são uma imagem do meu Saturno em Gêmeos. O fato de serem dois está relacionado à dualidade desse signo. Saturno é a autoridade, o poder, a razão. Nada mais apropriado a ele do que o cargo de senador romano. No sonho, houve obviamente uma inversão: de senhor todo-poderoso, Saturno passa a prisioneiro dos hebreus, o povo mais fraco, os dominados. Entre eles, a figura de destaque é o carrasco, e eu o relaciono a Plutão, aquele que mata, corta, amputa, decepa. Plutão é o senhor das profundezas do inconsciente. Então, aqui já temos o conflito delineado: razão versus inconsciente. Tanto Saturno quanto Plutão são planetas muito fortes no meu mapa. Saturno se localiza bem próximo ao descendente, na casa 6, a casa do trabalho cotidiano e da sistematização, fazendo oposição a Netuno no ascendente, outro índice de irrealidade, fantasia, inconsciente. Às vezes penso que foi esse Saturno tão forte que me fez buscar sempre a racionalidade na vida, o poder analítico, o entendimento das coisas. Plutão, por outro lado, é o planeta mais alto que tenho no céu, um verdadeiro rei em conjunção com sua rainha, a Lua, fazendo ali aspectos com outros nobres senhores, como o próprio Saturno e Júpiter. Plutão não é tão inclemente como à primeira vista pode parecer. Acaba cedendo aos apelos do senador romano para matá-lo sem sofrimento. Saturno não se importa de parecer covarde se isso proporcionar o melhor resultado diante das circunstâncias. O importante é agir sempre de acordo com o que é mais racional. Estando em Gêmeos, é bem capaz de argumentar com seu carrasco na hora derradeira e de lhe convencer, usando apenas palavras. Mas é intrigante para mim saber que Plutão deseja tanto assim matar Saturno e assumir definitivamente o controle. Os atos de cerrar ao meio e, principalmente, de decepar a cabeça parecem indicações inequívocas desse desejo subterrâneo de destroçar a racionalidade. Mas acredito que esse desejo jamais será realizado plenamente, afinal, o sonho não apresenta o sacrifício final de Saturno e se interrompe antes que ele aconteça. O que ele encena é apenas o delineamento do conflito entre esses grandes senhores celestes.

Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

Sonhos históricos

(Do meu diário de sonhos sem data especificada)

Sou uma guerrilheira numa pequena aldeia invadida por um exército inimigo. Os soldados vestem-se de preto e eu vou assistir ao desfile da sua vitória comendo um estranho fruto verde cheio de espinhos. Quando um homem do exército se descuida, eu o mato com a ajuda de um cachorro que o destroça. Vivo num canil com cães e gatos e esse é o primeiro homem que mato aos 14 anos.

Estou estudando história. Uma aldeia hebréia captura dois senadores romanos. Há uma espécie de comemoração na aldeia, uma festa tribal. Os senadores assistem à festa amarrados e ajoelhados no chão. Os hebreus dançam diante deles até que o carrasco os leva para uma sala branca e os deita numa mesa com os braços e pernas amarrados, os braços estendidos ao lado da cabeça. O carrasco se detém sobre um deles e diz:
_ Eu vou cortar o cepe - e coloca a foice na linha do umbigo do prisioneiro.
_ Por favor, faze comigo como fazes com os carneiros, não tenhas a crueldade de cortar-me o cepe com minha cabeça dentro - diz o prisioneiro.
O que ele está querendo dizer é que o carrasco deve ter a piedade de cortar sua cabeça antes de cortar-lhe o corpo ao meio.
_ Não, vou cortar o cepe com tua cabeça dentro para que não apanhes um resfriado.
O senador implora mais uma vez e o carrasco acaba concordando:
_ Está bem, cortarei tua cabeça primeiro apenas porque foste suficientemente covarde para implorar.

Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

Escrita automática 2

Uma faca comprida e grossa de aço, com um garfo, descansa sobre a mesa vestida com uma toalha branca de linho puro, posso ver os fios grossos do linho entrelaçados, unidos como irmãos muito próximos, essa superfície branca brilha no meu campo de visão, reflete a luz intensa que entra pela janela, o sol tão silencioso que faz tudo vibrar, vibra a minha pele, lateja o meu sangue debaixo dela, pela minha testa escorrem pingos, sou essa presença dentro da sala, quem está viva aqui sou eu e as pequenas formigas que correm por entre os meus pés no chão, elas levam as migalhas da comida para longe, em suas costas grãos de arroz, farelos de pão, as formigas são as únicas que se mexem, transmuto-me numa formiga para saber o que vêem, mas as formigas não vêem nada, são cegas, as coitadas, não fazem a menor idéia do que se passa com elas, não sabem que as grandes catástrofes que se abatem sobre elas são, para nós, humanos, coisas simples e pequenas, entre as formigas, no mesmo escuro em que estão imersas, sigo em fila indiana, equilibrando nas costas o meu quinhão para alimentar o formigueiro, as novas gerações, mas é tão longe o destino final e desconfio que há algumas de nós que se perdem, que erram o caminho, ouço o que parecem ser gritos de socorro, mas ninguém faz nada, ninguém se atrave a sair da fila, deus me ajude de não errar o caminho, começo a tremer de pavor de me extraviar nesse universo gigantesco e desconhecido, o medo faz com que me transmute de novo em gente, estou de pé no limiar da porta, acaricio a gata que se enrosca entre minhas pernas, saio para o jardim e o jardim tem um brilho estranho como se tudo estivesse vivo, mas não estivesse ao mesmo tempo, a gata me diz, não dê mais nenhum passo, por quê?, porque vai cair no fosso, que fosso?, e já é tarde demais, já estou rodopiando num buraco sem fim, e a gata vem comigo, para onde vamos?, antes de terminar a frase caio sentada no chão, com cara de dor, mas a gata cai em pé, elegante e safa, vamos por aqui, a gata empina seu rabo e anda daquele seu jeito inimitável por um dos túneis, vou atrás, pensando, a vida inteira ela andou atrás de mim, agora sou eu que ando atrás dela, será que a partir de agora tudo vai se inverter?, a gata não olha para trás nem sequer uma vez e pensar que há poucos minutos gostava tanto de mim, no fim do túnel há uma cela, e preso ali está um demoninho, gordo e risonho, troco minha liberdade pela sua, como?, me ajude a sair daqui e ajudo você a voltar para o Kansas, não sou a Dorothy, não faz mal, faço você voltar para onde quiser, arrebento o cadeado com os dentes e de repente estamos eu e a gata de volta ao cenário original, mas o demoninho está morto em cima da mesa transmutado em leitão, com uma maçã na boca, e vou comê-lo agora com minha faca e meu garfo compridos e grossos de aço.

Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Escrita automática

se eu conseguisse sair sair assim devagar ou mesmo rápido sair pela porta sair pela janela se eu pudesse sair aqui dentro é tão morno tão sufocante escuro mas escuro azul azul assim meio brilhante não sei essa coisa das cores não sei porque tem que haver cores porque daí sempre fico me perguntando o que significam o que significa um azul dentro de uma bola quente e preta estou dentro da bola quente e preta tão ardente tanto calor que quero sair por algum lugar se esse azul me trouxesse frio mas não traz está tão quente aqui lá fora talvez esteja pior vou fazer um furo com minha lança vou fazer um furo vermelho que dê para olhar para fora fiz um furo com minha lança e agora o ar está passando lentamente o ar tem pequenas partículas dançando nele e a gente pode ver isso porque há luz a luz entrou com o ar com minha lança vou fazer um buraco maior vou rasgar essa superfície e agora posso ver o que há lá fora ou não porque é tudo ainda escuro mas oh deus não é tão quente não ao contrário é fresco a gente pode se refrescar o vento vai secando o suor eu quero ver agora faça-se a luz e a luz foi feita e o que vi primeiro foram os grandes vagalumes vestidos como homens de chapéu preto na cabeça os homens maus os vi em seu vôo estupendo e estavam descendo sobre a terra para castigá-la e eu disse oh por que desceis sobre a terra dessa forma tão vil e não me responderam e falei novamente por que desceis sobre a terra homens maus para fecundá-la mulher de estranhas palavras disse-me um deles ou foram todos em uníssono a terra fecundada por homens e tu por acaso não nasceste da terra é que estava tão quente mas por que destruir tudo primeiro porque é assim é preciso destruir para que o novo possa nascer mas se não sobrar nada como o novo poderá alimentar-se sobreviver em meio à secura deste deserto tu és uma mulher sem fé oh não aquele que nasce verdadeiramente não precisa de nada pois já é perfeito em todas as suas partes nasce e não cresce sim porque adulto já é um deus então assim como tu que fazes perguntas tão engraçadas nasceste já falando todas essas coisas e querendo saber muitas outras tens uma grande curiosidade a outra coisa que vi foi o pássaro preto que lá do alto olhava para baixo e fazia sons estranhos o pássaro de lindas penas pretas esse pássaro que voa em círculos sobre nossas cabeças disse ao pássaro tu sabes para onde vão as horas ele respondeu numa língua que não entendi alguém me disse bem baixinho esse pássaro é alguém muito grande no céu você não chega até ele mas ele me ouviu e respondeu a minha pergunta eu é que ainda não posso compreender muitas árvores passavam no caminho que eu atravessava mas passavam assim deslizando então percebi que estava dentro de uma canoa que ninguém navegava estava em pé na canoa tão linda em meu vestido branco olhava para frente meio hipnotizada só podia ver algumas coisas a floresta tem cores estranhas e sons de animais que nunca se ouviu mas não estou com medo primeiro me aparece a raposa fica olhando para mim da margem quase não posso me mexer quero saltar e ir com a raposa mas não consigo a raposa me diz você não tem pena dos infelizes da floresta oh sim mas não sabia que eram infelizes você vem aqui para torná-los ainda mais infelizes oh não dona raposa vim para salvá-los salvá-los como poderia você salvar alguém de alguma coisa oh dona raposa mas fui a única do reino inteiro que se ofereceu nessa missão vou dizendo isso sem saber porquê porque sei que não há reino algum nem me ofereci para nada a raposa é tão perigosa se ao menos pudesse descer para a margem peço permissão para desembarcar você pode vir mas ficarei de olho em você e entrei na floresta encantada e os animais estavam infelizes porque o monstro andava doente e seu hálito pestilento fazia tudo adoecer nada mais brotava os filhotes não nasciam alguém tinha que curar o monstro de seu grande mal e comecei a pensar se tinha algum remédio comigo alguma poção mas ora primeiro vamos ver o monstro e fui conduzida pelos animais da floresta até onde estava o monstro deitado sobre suas feridas horrorosas um cheiro pútrido envenenava o ar eu disse oh olá monstro como vai ele me olhou com seus olhos que antes eram terríveis e agora eram tristes e não conseguiu dizer nada eu disse vou curar você não sei por que disse isso porque não tinha comigo nada que pudesse curá-lo nenhum remédio erva nenhuma vou cantar uma canção de poder que aprendi com os índios nhamora e você vai melhorar aquela estranha canção vinda não se sabe de onde cujos versos não estou certa de saber o que significam cantei e meus pés queimavam no solo e o monstro foi levantando devagar e foi ficando bom e eu tive que começar a correr porque ele vinha atrás de mim para me comer logo eu que o tinha salvado mas corri corri e entrei na canoa e fugi e de longe vi a floresta feliz outra vez

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Lembrança de nascer

(Para Alvany e Beto)
Não me recordo de muita coisa, mas lembro que transitava livre por imensos espaços. Quanto tempo durou isso? Não tenho como mensurar, podem ter sido dias ou séculos, não sei. Mas pouco importa agora porque a sensação que tinha era a de um eterno presente, como se o dia nunca acabasse ou começasse, como se tudo estivesse no seu centro, no seu ápice, e não restasse mais nada. Não posso dizer se havia outros comigo, mas sei que não me sentia só. Imagem do período não me restou nenhuma, apenas um campo de cor branca cintiliante sem fim a tomar minha consciência por completo. Em que corpo viajava? A única certeza que tenho é que não havia mãos nem braços nem pernas nem mesmo patas de quadrúpede. Nada havia que pudesse chamar de meu corpo. No entanto, existia, sim, existia plenamente, e pensava em inúmeras coisas. Talvez pensar não seja a palavra certa, mais apropriado dizer que as idéias me aconteciam, e eu sabia. Sabia, tinha conhecimento de tudo, minha mente irmanada com tudo. Tanto é assim que não resisti quando me senti arrastar novamente pela carne. É verdade que senti tristeza em voltar à velha prisão, mas naquele momento comprendia o sentido. O processo de entrar outra vez num corpo foi, ele sim, sentido como lento, como se muito, muito tempo tivesse se passado para que chegasse a termo. Era a carne tenra e macia dos que ainda não viram a luz e foi aos poucos se tornando maior e mais forte. Lentamente os limites da ancestralidade desse ser se impuseram a mim sem que nada pudesse fazer para evitar. E o sexo? Esse foi o fardo mais pesado. Mais uma vez senti esse corte incurável, essa divisão e o peso que ela carrega. Quis me revoltar nesse estágio, implorei por clemência, roguei para que me libertassem num longo e dolorido lamento, mas não houve resposta. Por fim, resignei-me e, momentos antes de respirar pela primeira vez, vi as mãozinhas que agora me eram dadas, elas se mexiam em pequenos espamos, senti suas articulações e pensei, antes de ali mergulhar em definitivo, sou novamente um animal.

Sábado, 19 de Janeiro de 2008

As bolhas da Rua Venezuela

A rua é cinza molhada. De ambos os lados, há casas com muros e paredes coloridas e descascadas, sendo que algumas nunca conheceram reboco. Belos mesmo são os fios de eletricidade, tantos fios indo e vindo em várias direções e enchendo o campo de visão de riscos pretos. Nunca vimos um céu sem fios, postes, torres gigantescas de alta tensão. Nos fios, há tantas coisas: pedaços de pipas molhadas e desbotadas, tênis velhos com os cadarços enrolados. Isso sem falar nas pombas, que escolhem pousar em algumas partes e em outras não, a gente se pergunta por quê. Durante o dia, dezenas de crianças barulhentas brincam descalças e maltrapilhas, parando quando algum Passat velho insiste em trafegar por ali. Todos os carros se parecem naquele lugar, mudando apenas a cor. À noite os gatos vira-latas procuram restos de comida no lixo ou brigam nos telhados. Mas a rua infelizmente não é só isso. Ela está impregnada de grandes bolhas suspensas e invisíveis que, se não formos espertos, podem nos tomar à revelia. Aquele que anda distraído há de ser capturado, assaltado por uma memória indelével, por pensamentos obsessivos ou por uma imagem sinistra tão nítida quanto aquela que se projeta dos televisores avistados pelas frestas das janelas. O homem de macacão com respingos de tinta, enquanto caminha cansado e feliz de volta a casa, se insere sem querer numa dessas bolhas. Imediatamente sua expressão muda, ele pensa com tristeza nas mulheres que quis e não teve. Houve uma inclusive que desejou muito matar, ela e o outro que a tomou, mas não matou. Engoliu o ciúme e a vergonha de ter sido preterido com pinga e silêncio. Agora rumina novamente o amargor da rejeição e da covardia. Do outro lado da calçada, a mulher que vai cheirosa e arrumada, embora não maquiada, ao culto da igreja entra numa outra dessas bolas, sem que daqui possamos fazer nada para evitar. Sua mente é subitamente tomada pelo rosto, tronco e membros nus do padrasto, que a violentou repetidas vezes dos onze aos quatorze anos, antes que tivesse coragem de fugir para São Paulo. Nunca falou disso a ninguém, esmerando-se para abafar quaisquer lembranças do ocorrido e se espanta agora que essas imagens passem em cascata diante de si. São as bolhas, as terríveis bolhas da Rua Venezuela, que estragaram o final de tarde dos dois e de todos os que passaram por ela naquele dia e em outros semelhantes.

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

A queda

Tendo finalmente se decidido, comprimiu a testa contra o vidro uma última vez e deixou livres os pensamentos do lado de fora. Treze andares abaixo, o asfalto do estacionamento pulsava por causa do calor infernal. Ninguém mais o incomodava agora. Abriu a janela e subiu no parapeito. Fechou os olhos. Quando os abriu novamente, estava embaixo d'água, submerso num mar escuro em que podia respirar sem nenhuma dificuldade. Sua cabeça girou uma ou duas vezes na água. Não conseguiu enxergar quase nada, mas percebeu o movimento de grandes cardumes de peixes a nadar em várias direções. Não soube se ainda estava lúcido ou se sonhava. Podia sentir as correntes marítimas batendo contra a superfície de seu corpo e os peixinhos roçando a sua pele. Todo ele era agora uma imensa massa de sensações flutuando naquela água densa. A visão foi voltando aos poucos, tão limitada quanto sempre havia sido. Só então se lembrou dos óculos. Onde teriam ido parar? Não lembrava se os estava usando antes da queda, o momento mesmo da queda apagado da memória. Lançou-se com toda força para cima até chegar à superfície revolta do mar. Acima de sua cabeça, a escuridão da noite era interrompida de tempos em tempos por alguns agrupamentos de estrelas. Levantou uma das mãos para fora da água em três tempos. Entre um e outro movimento havia trechos inteiros de conversas que era preciso reconsiderar, as frases batendo-lhe nas têmporas, as palavras e seus diversos significados. Pensava muitas vezes nas mesmas palavras até completar um movimento inteiro. Daí passava a outro. Quando deu por si, dava braçadas lentas, mas vigorosas naquele mar desconhecido. Estava novamente entre os vivos.

Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

Interna

Então ela parou fresca e trágica como o último som de uma melodia assobiada. Agora que posso continuar, pensou, agora que posso continuar com minhas súplicas, elas desaparecem da minha mente e não sei mais as palavras. Retorno, assim, ao rio escuro e parado das primeiras frases sem sentido, do balbucio incompreensível. Todo meu ser entrando nessa água grossa e fétida. Só agora conheço o gozo da carne em contato com um meio estranho. Perder-se em nova vida. Desaparecer submersa. Tornar-se apenas uma memória para o rio, que continuará por muito tempo ainda depois de mim.

Essa flutuação constante me cansa. Quando poderei tocar novamente o chão com força? Sentir os meus pés batendo contra o solo e o barulho surdo dessa batida retornando aos meus ouvidos e entrando em sintonia com meu coração? A resposta não vem e a pergunta segue dando voltas em meus ouvidos. Ouvidos não, orelhas, já que a coisa é mais dura, mais presente e necessita da superfície do corpo. Tudo o que se projeta para fora dessa massa pálida e quente que é o meu corpo. As orelhas grandes e rosadas por onde as palavras giram sem que nenhuma escape de sua órbita. Retiro uma pequena verdade com as pontas dos dedos e ela é redonda e macia como a cabeça de um animal recém-nascido. Uma verdade não humana. Rolo essa verdade entre os dedos até que se quebre e eu possa ouvir o estalido de seus ossos. Sinto prazer em assassiná-la tão facilmente.

Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Vida

(Do meu diário de 1996)

Você sabe a origem da inveja? O primeiro contato com a inveja é a descoberta de que o seio é o outro, de que aquilo que nos alimenta não nos pertence. O que é bom está fora de mim. É essa constatação que provoca a inveja. E a vida inteira vai ser assim, como uma gangorra. Se aqui deste lado está todo o mal, o bom só pode estar do lado de lá e vice-versa. Mas se daqui posso ver e reconhecer o que é bom, é porque tenho conhecimento íntimo do que é bom. Isto é, o bom me pertence também. Então, isso de eu achar todo mundo genial de um lado e eu, a porcaria, do outro, é uma ilusão porque, se vejo o bom é porque o possuo também. Mas onde está o meu bom? Onde está o que em mim não vejo? Vejo nos outros, na inteligência, criatividade e beleza dos outros, mas em mim não vejo. Tudo o que faço é ruim. O que vem de mim é ruim. Eu sou ruim, pior. Mas o outro é bom, é criativo, iluminado, perfeito. O outro também tem angústia, mas a angústia do outro é proveitosa, vira livro, pintura, arte. E a minha? A minha vira o quê? A minha angústia não vira nada. É a angústia por si só. E não há o que resolva.

Se vamos ficar pensando nesta ou naquela possibilidade, é melhor prosseguirmos com as averigüações do quão pernicioso tem sido esse sistema de vida. O sistema de vida quebrado e paralítico que estamos vivendo e que não nos deixa outra saída senão ouvir de todos - com constrangimento - os tais conselhos que detestamos. A roda que está emperrada poderia andar novamente? E a roda verde quadrada do sonho de tantos anos atrás? A roda do carro cheio de livros. As prateleiras de livros têm copos e xícaras onde se pode ler os nomes das emoções. Para cada emoção uma dose para que não se misturem nem se descontrolem. O buraco em que Alice caiu tinha armários cheios de louça. Enquanto caía, a menina passava por eles, tão menores do que ela, pequenos armários de louça de brinquedo. Brincar de panelas, garfos e facas.

Quando brinco com panelas, garfos e facas, o que é que me acontece? Cortar o primeiro pedaço antes de todos os outros, colocá-lo, junto com água e terra, dentro da panelinha no fogão em que não há fogo, esperar que isso queime, e queimará sob o sol, e está pronto o alimento que nos agrada e sustenta. O sustento vem disso então: dessa brincadeira de criança. O sustento para nossos dias longe. Os dias em que estivermos muito longe, andando em círculos atrás de algo que nos escapa. Sabe você o que é procurar em vão o que insiste em se perder? Tudo o que perdermos nessa terra encontraremos de novo no céu. Do céu só cai chuva, meu pai me dizia antes que começassem a despencar do alto todas aquelas coisas fantasiosas que nos assustaram. Antes o mundo era mais simples, mas mesmo assim éramos inquietos e desejosos de repouso. Sonhe-se com isso novamente. Em ter de volta as coisas todas: os pequenos objetos procurados depois da chuva. O que nos traria a chuva em sua generosidade? A chuva traz pequenos objetos brilhantes que permanecem ainda algum tempo depois que ela se vai. Esses objetos dizem: me pegue, faça de mim alguma coisa porque eu mesmo, em mim, não sou nada. Daí todas aquelas idéias estapafúrdias de colecionar coisas encontradas depois da chuva. E anotar os dias em que chove porque são dias sagrados, encontrem-se objetos ou não.

Preparar a comida para os homens, tê-los alimentado, verificar se comem, porque, se comem, é porque nos amam. Comer a comida da mãe. Comer a comida de estranhos. Comer a comida do homem. Ter o homem dentro de si. Desejar outro homem. Tê-lo. Passar de um homem a outro como se fossem o mesmo - e são. O mesmo homem dividido em todos os outros. Ou então procurar a diferença. A diferença de um homem e de outro. A diferença que nos faz sorrir e pensar em como somos importantes após termos encontrado tantos homens diferentes. A diferença.

Voltar para casa e preparar a cama. Dormir então, sozinha dessa vez, e lembrar a alegria que foi o homem. E o dia cheio de pequenos entraves e obstáculos às realizações que queríamos. O sol por trás de tudo em tiras despregadas e flácidas, um sol de tinta acrílica seca sobre o azulejo, um pedaço colorido de plástico. O último sol que verás em vida. O sol que queimará os teus olhos até a raiz. Por trás do sol, a gente pode pensar de novo que isso tem sido como um ir e vir interminável, como mergulhos sucessivos ou como sexo.

Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

Interpretação do sonho

"Pois Deus fala de uma maneira e de outra e não prestas atenção. Por meio dos sonhos, das visões noturnas, quando um sono profundo pesa sobre os humanos, enquanto o homem está adormecido em seu leito, então, abre o ouvido do homem e o assusta com suas aparições, a fim de desviá-lo do pecado e preservá-lo do orgulho, para salvar-lhe a alma do fosso e sua vida, da seta mortífera. Pela dor também é instruído o homem (...)" (Jó, 33: 14-19).

O texto acima foi tirado do livro de Jó e afirma que Deus tem dois modos de nos ensinar: através dos sonhos e do sofrimento. Sempre gostei de interpretar sonhos. Na verdade, minha história bíblica favorita é José do Egito. Gostaria de ser uma grande intérprete de sonhos como ele. Dentro das minhas limitações, faço o que posso. Tive o sonho que reproduzi na postagem abaixo aos vinte e três anos de idade. Acho que até hoje foi um dos mais bonitos que já tive. Tenho uma interpretação para ele e gostaria de compartilhá-la com vocês.

Em primeiro lugar, devo dizer que esse sonho faz parte e encerra uma seqüência de verdadeiros pesadelos que me acometeram numa fase muito difícil da minha vida. Estava no começo de minha vida adulta e alguns eventos trágicos marcavam o fim de um período e o início de um outro. Tinha trancado a primeira faculdade e me encontrava quase que num limbo, sem saber o que fazer. A beleza do sonho vem da idéia de renascimento presente nele.

Eu estava num campo de refugiados, o que indica que havia acontecido uma catástrofe lá fora (exatamente como na minha vida real). Afinal, ninguém vai a um campo de refugiados para passear. Mas há a sensação de que o pior já passou e as pessoas que ali se encontram vão iniciar uma vida nova. A fazenda é, no entanto, árida, então, o futuro não é uma promessa de facilidades, mas de trabalho duro. Numa espécie de pausa, homens e mulheres brincam de pega-pega. Não é possível ignorar o conteúdo sexual dessa brincadeira. Acho que foi num filme sobre a vida de Maria, mãe de Jesus, que vi a encenação de uma brincadeira semelhante em que as moças corriam e os homens tentavam pegá-las. Aquele que alcançasse uma moça se casava com ela. José conseguiu enlaçar Maria. Não sei se tinha visto esse filme antes do sonho, mas é provável que sim.

Como é tudo uma brincadeira, ser agarrada por um homem não é nenhuma desgraça. Não estou correndo de pavor. Mas é o desejo de vencer que me anima. Acredito que esse sonho traz, na verdade, a realização de dois desejos: ser agarrada por um homem (um desejo sexual ou de casar) e vencer a brincadeira. O fato de eu reparar em detalhes sobre os homens como a pele negra e o cabelo loiro pode ser um indício de que esses elementos funcionam como fetiches sexuais. Correr mais rápido que todos os homens, subir a ladeira até o portão e vencer são, para mim, sinais claros de um forte desejo de ascensão social, de vencer na vida num mundo dominado por homens, algo que, naquela época, me preocupava muito. Não tinha ainda certeza se ia conseguir ser uma mulher independente. Ao contrário, tinha medo de não conseguir e acabar simplesmente casada, uma dona de casa sem profissão (não estou criticando, apenas dizendo que não queria isso para mim).

Mas são desejos sentidos como contraditórios. Quando sinto alguém me agarrar por trás, o primeiro desejo se realiza, mas sinto uma grande decepção. Nesse ponto, o sonho se reformula (Freud notou a capacidade de os sonhos se reformularem de acordo com as reações do sonhador) e vejo que quem me agarrou foi minha amiguinha Cláudia. A Cláudia era uma menina muito boazinha com quem estudei que era um pouco fraca nos estudos (ao contrário de mim, que era forte). Então, quando corro com ela, estou correndo com minha parte fraca, frágil. E, juntas, vencemos a brincadeira. É a minha personalidade unificada - elementos fortes e fracos, femininos e masculinos - que vence a disputa.

Como todo sonho, há fortes elementos de narcisismo: o fato de poder correr mais rápido que todos os homens, a impressão de que todos os homens correm atrás de mim - com exceção da Cláudia, não vejo mais nenhuma mulher correndo -, os outros refugiados que parecem torcer por mim. Enfim, tudo funciona como se eu fosse o centro do universo onírico. Mas afinal o sonho era meu, não era?

É um sonho de vitória e esperança que lançava luz sobre o meu futuro. Hoje, treze anos depois, me pergunto: será que, na minha vida de vigília, também venci a corrida? Não sei dizer, mas a verdade é que, depois desse sonho, voltei para São Paulo, terminei a primeira faculdade, arrumei um emprego que me tornou totalmente independente, depois arrumei outro e mais outro, fiz a segunda faculdade, ingressei no mestrado, ganhei uma bolsa de estudos, terminei o mestrado, ingressei no doutorado, consegui outra bolsa... Enfim, estou fazendo o meu caminho até o portão. O melhor é que também me casei no intervalo, sem que isso significasse perda da independência.

Não ignorem seus sonhos. Eles trazem mensagens divinas.

Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Pega-pega

(Do meu diário de sonhos)
20/09/1995
Num acampamento de refugiados ou numa fazenda árida, eu tenho que correr para que nenhum homem me alcance. É uma brincadeira de pega-pega. Acho estranho correr tanto e não cansar. Um homem negro e um cachorro negro quase me pegam, mas sou mais esperta e vou em outra direção. O portão da fazenda fica numa subida íngreme. Se chegar ali sem nenhum homem me pegar, ganho a brincadeira. Três ou quatro homens estão no meu encalço. Um deles é loiro. Ouço as pessoas dizerem que ele está quase me pegando. Corro muito. Caravanas de refugiados que chegam à fazenda e que passam pela estradinha gritam e acenam para mim. Quando estou quase chegando ao portão, sinto alguém me agarrar por trás. Olho e é a Cláudia, uma menina com quem estudei no ginásio. Fico feliz por não ser um homem. Grito e comemoro no portão nossa chegada juntas. Nos abraçamos.

Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Diferentes, mas iguais

_ Mas quando você reza, pede ao santo que te dê alguma coisa?
_ Sim, peço.
_ Eu não peço nada, nem rezo pra santo nenhum, só declaro o que quero com bastante clareza.
_ Eu rezo três vezes e acendo uma vela.
_ E dá certo?
_ Olha, vou te dizer: tudo o que peço pra Santo Expedito ele me dá. Até eu acho estranho, mas ele me atende todas as vezes.
_ Mas você acha que é o santo que te dá?
_ Não acho nada. Não busco explicações.
_ Acho que o santo é só um pretexto. Você consegue as coisas porque declara seu desejo ao universo ou a sua própria mente, que se encarrega de agir.
_ Pode ser, mas gosto de pensar que existe um mistério, algo que não compreendemos.
_ Isso com certeza. A gente nunca compreende o porquê, o mecanismo completo. Eu apenas repito várias vezes o que quero, mentalmente ou em voz baixa. Às vezes até escrevo.
_ E dá certo?
_ Sim. Também consigo tudo o que quero.
_ Então, qual é a diferença?
_ Se você pensar bem, nenhuma. A diferença é só de meio, o resultado é o mesmo.
_ Então, por que estamos tendo essa conversa?
_ ...
Todas as conversas são inúteis.

Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Mirtes e Fernando

Foi muita ingratidão tua. Desculpa, mas é verdade. Não custava nada pra você e pra mim significava muito. As frases passam como flechas pela cabeça de Mirtes, mas ela não as pronuncia. Fica vendo o vazio enquanto o namorado liga o carro. Mirtes não aguenta mais brigar. Tem coisas que não mudam, não adianta. Para que ficar falando que nem um disco rachado se não vai surtir efeito nenhum? Não tenho acesso à cabeça do Fernando, não sei por quê, acho que é por uma questão de gênero. Nunca na minha vida entendi a cabeça de um homem, não vai ser a do Fernando, que nem conheço direito, tô vendo só agora. Acho que o dia que eu entendesse a cabeça de um homem era capaz de acontecer uma revolução na minha vida. Ou não. Pode ser que nem valha o esforço. Pela cara, o Fernando não tá muito feliz, não. Mas que homem faz uma cara boa quando a namorada tá com cara de cu? Acho que ele queria estar em qualquer lugar, menos ali. Já os pensamentos da Mirtes eu ouço direitinho. Imagine que você ia descer desse pedestal?! Nunca mesmo. Nunca ia dar o braço a torcer, me dar esse gostinho, imagine. Você, que tem que ter sempre a palavra final, sempre tudo tem que ser do seu jeito, como quer. Não aguento mais. Mirtes diz que não aguenta mais faz uns anos já, mas até agora não fez nada. No fundo, ela acha que tá tudo ruim, mas tá bom assim mesmo. Não queria me meter, mas a Mirtes é muito acomodada. E é meio burra também. Fosse outra mais espertinha, já tinha posto o Fernando no lugar certo. Fazia ele comer na sua mão. Mas ela não sabe fazer isso, coitada. Tem mulher que devia ter nascido homem, era a única solução. A Mirtes é assim. A vida inteira penou na mão de qualquer imbecil, ô, mulher tonta. Que saco ter que ficar aqui olhando pra tua cara e fingindo que tá tudo bem! Não sei que vantagem levo nisso tudo. Não era melhor ficar sozinha do que aguentar as tuas criancices? Fernando começa a cantarolar uma música bem idiota e reclama de absolutamente todos os carros que passam na sua frente, do seu lado ou atrás. Acho que ele queria mesmo era andar sozinho na rua. Quem sabe jogar o carro por cima de todo mundo como se fosse um trator? Passa por um sinal vermelho e ri que nem besta. Não sei de quem tenho mais raiva: se da Mirtes ou do Fernando. Se o carro batesse de repente num poste, seria muito bom. Assim sumiam os dois da minha frente.

Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

A bisavó

A bisavó, quando se casou, não contava ainda treze anos. Ai, que mundo gigante e eu que sou tão pequenina! O bisavô tinha quarenta e sete, mas isso era uma coisa normal e ninguém estranhou. Na roça, uma mulher se alegrava de casar cedo e não se tornar, por muito tempo, um fardo para seus pais. Esses campos que se perdem de vista, mas o que há mais além? Existem coisas diferentes ou é tudo sempre igual? A bisavó tinha uma boneca de pano e outra de espiga de milho. Quando o bisavô ia cuidar da lavoura, ficava brincando com elas, mas ao mesmo tempo fazendo a comida porque, se ele chegasse e não encontrasse tudo pronto, era problema na certa. Queria ver o mundo inteiro. Deve ser muito bom conhecer outras paragens, ser livre para andar sem rumo por esse mundão de meu Deus. Mas isso durou até vir o primeiro filho. Ele era tão lindo, tão lindo, que a bisavó até esqueceu por um tempo o desejo de liberdade. O amor de mãe foi o primeiro sentimento que a tomou por inteira, sem ela nem saber que era capaz de sentir aquilo tudo. Depois do primogênito, veio o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, até chegar a doze. E o amor arrefeceu. Tudo o que é excessivo enfastia. Será que essa vida é só isso? Será que não me resta mais nada? A bisavó nunca saiu daquele rincão, mas seus filhos e netos sim. Seus bisnetos vivem hoje espalhados por vários lugares, em cidades grandes e pequenas. Há inclusive um que vive na Tailândia, que a bisavó nem imaginava que existia. Mas nenhum deles sabe o nome dela e, quando rezam - o que é raro -, não a incluem em suas preces. Nessa vastidão infinita, só o silêncio me acompanha.

Sábado, 5 de Janeiro de 2008

No trânsito

A mentira foi o que me mais me magoou, pensa Flavinha enquanto dirige lentamente no trânsito parado de São Paulo às seis horas da tarde. Será que Flavinha está certa? A mentira não é, no fundo, necessária a nossa sobrevivência como animais sociais? Sempre achei que sinceridade demais é falta de educação. Mas Flavinha parece ter outra visão das coisas. Perdôo a traição, sou capaz de perdoar, mas a mentira não, a mentira não. Por que os homens mentem? Ou será que eles não mentem? Você diz a verdade e a verdade é seu dom de iludir, como pode querer que a mulher vá viver sem mentir? Às vezes a verdade não é possível, Flavinha. Um homem às vezes não consegue dizer o que pensa. Olha, estou muito enfastiado, ainda amo você, mas sinto vontade de transar com outras mulheres. Isso só na Suécia. Flavinha está subindo a Teodoro Sampaio com seu Palio vermelho 1997 e lembra, envergonhada, dos momentos em que também mentiu. Por que as mulheres mentem? Olha, estou muito enfastiada, ainda amo você, mas sinto vontade de transar com outros homens. Isso só na Noruega, nos países nórdicos. Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Pecado talvez não, mas mentira...

Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Consulta de tarô

No espaço retangular do papelão brilha um sol colorido de rosto alegre. Do sol saem gordas gotas amarelas, brancas, azuis e vermelhas, que caem como uma chuva abençoada. São o alimento divino da terra. Duas crianças brincam dentro de um recinto cercado por um muro de tijolos dourados. O jardim do Éden reconstruído. Uma criança toca a outra na nuca e é tocada por sua companheira no peito. Dois iguais se reconhecem sem medo. A carta dezenove é a melhor do tarô. O viajante finalmente encontra a luz da jornada, e o consulente, a vocação de seu espírito, o sucesso de seus empreendimentos, a felicidade no amor. É um arcano benfazejo de sorte e toda vez que ele aparece num jogo a cartomante sorri diante da generosidade do universo.
_ "Sim, com certeza", a resposta foi "sim, com certeza".
_ Não é possível que esteja errado?
_ Não.
_ O tarô nunca errou?
_ Quem erra somos nós.
_ Mas nunca houve uma vez que as cartas disseram uma coisa e aconteceu outra?
_ Já aconteceu de eu entender uma coisa e, no meio do processo, perceber que na verdade as cartas queriam dizer outra. O erro, nesse caso, foi meu e não do tarô. O tarô está sempre certo, nós que às vezes lemos errado.
_ Como sabe que não está lendo errado agora?
_ Não sei, mas a carta do sol não deixa dúvidas. A interpretação tem que ser necessariamente positiva, muito positiva. Você perguntou se seu desejo ia se realizar e a resposta foi "sim, com certeza".
_ Mas...
_ Não entendo a resistência. Se fosse uma resposta ruim, ficaria mais feliz?
_ Não acredito que possa ser verdade.
_ O que você acredita ou não tem pouca importância agora. Algo maior do que sua vontade traz luz pra sua vida nesse momento.
_ Pergunta de novo pra confirmar.
_ Isso é desrespeito com o oráculo. Ele respondeu com clareza, não carece perguntar novamente.
_ Mas sou uma pessoa muito desgraçada, um cachorro sarnento, um réptil asqueroso, como é que vai acontecer uma coisa tão boa na minha vida?
_ Pra você ver que o universo é mais generoso do que podemos supor. Mesmo com você se vendo de uma forma tão negativa, ele tem uma opinião diferente a seu respeito. Aproveite isso e reformule a visão que tem de si mesmo.