"Pois Deus fala de uma maneira e de outra e não prestas atenção. Por meio dos sonhos, das visões noturnas, quando um sono profundo pesa sobre os humanos, enquanto o homem está adormecido em seu leito, então, abre o ouvido do homem e o assusta com suas aparições, a fim de desviá-lo do pecado e preservá-lo do orgulho, para salvar-lhe a alma do fosso e sua vida, da seta mortífera. Pela dor também é instruído o homem (...)" (Jó, 33: 14-19).
O texto acima foi tirado do livro de Jó e afirma que Deus tem dois modos de nos ensinar: através dos sonhos e do sofrimento. Sempre gostei de interpretar sonhos. Na verdade, minha história bíblica favorita é José do Egito. Gostaria de ser uma grande intérprete de sonhos como ele. Dentro das minhas limitações, faço o que posso. Tive o sonho que reproduzi na postagem abaixo aos vinte e três anos de idade. Acho que até hoje foi um dos mais bonitos que já tive. Tenho uma interpretação para ele e gostaria de compartilhá-la com vocês.
Em primeiro lugar, devo dizer que esse sonho faz parte e encerra uma seqüência de verdadeiros pesadelos que me acometeram numa fase muito difícil da minha vida. Estava no começo de minha vida adulta e alguns eventos trágicos marcavam o fim de um período e o início de um outro. Tinha trancado a primeira faculdade e me encontrava quase que num limbo, sem saber o que fazer. A beleza do sonho vem da idéia de renascimento presente nele.
Eu estava num campo de refugiados, o que indica que havia acontecido uma catástrofe lá fora (exatamente como na minha vida real). Afinal, ninguém vai a um campo de refugiados para passear. Mas há a sensação de que o pior já passou e as pessoas que ali se encontram vão iniciar uma vida nova. A fazenda é, no entanto, árida, então, o futuro não é uma promessa de facilidades, mas de trabalho duro. Numa espécie de pausa, homens e mulheres brincam de pega-pega. Não é possível ignorar o conteúdo sexual dessa brincadeira. Acho que foi num filme sobre a vida de Maria, mãe de Jesus, que vi a encenação de uma brincadeira semelhante em que as moças corriam e os homens tentavam pegá-las. Aquele que alcançasse uma moça se casava com ela. José conseguiu enlaçar Maria. Não sei se tinha visto esse filme antes do sonho, mas é provável que sim.
Como é tudo uma brincadeira, ser agarrada por um homem não é nenhuma desgraça. Não estou correndo de pavor. Mas é o desejo de vencer que me anima. Acredito que esse sonho traz, na verdade, a realização de dois desejos: ser agarrada por um homem (um desejo sexual ou de casar) e vencer a brincadeira. O fato de eu reparar em detalhes sobre os homens como a pele negra e o cabelo loiro pode ser um indício de que esses elementos funcionam como fetiches sexuais. Correr mais rápido que todos os homens, subir a ladeira até o portão e vencer são, para mim, sinais claros de um forte desejo de ascensão social, de vencer na vida num mundo dominado por homens, algo que, naquela época, me preocupava muito. Não tinha ainda certeza se ia conseguir ser uma mulher independente. Ao contrário, tinha medo de não conseguir e acabar simplesmente casada, uma dona de casa sem profissão (não estou criticando, apenas dizendo que não queria isso para mim).
Mas são desejos sentidos como contraditórios. Quando sinto alguém me agarrar por trás, o primeiro desejo se realiza, mas sinto uma grande decepção. Nesse ponto, o sonho se reformula (Freud notou a capacidade de os sonhos se reformularem de acordo com as reações do sonhador) e vejo que quem me agarrou foi minha amiguinha Cláudia. A Cláudia era uma menina muito boazinha com quem estudei que era um pouco fraca nos estudos (ao contrário de mim, que era forte). Então, quando corro com ela, estou correndo com minha parte fraca, frágil. E, juntas, vencemos a brincadeira. É a minha personalidade unificada - elementos fortes e fracos, femininos e masculinos - que vence a disputa.
Como todo sonho, há fortes elementos de narcisismo: o fato de poder correr mais rápido que todos os homens, a impressão de que todos os homens correm atrás de mim - com exceção da Cláudia, não vejo mais nenhuma mulher correndo -, os outros refugiados que parecem torcer por mim. Enfim, tudo funciona como se eu fosse o centro do universo onírico. Mas afinal o sonho era meu, não era?
É um sonho de vitória e esperança que lançava luz sobre o meu futuro. Hoje, treze anos depois, me pergunto: será que, na minha vida de vigília, também venci a corrida? Não sei dizer, mas a verdade é que, depois desse sonho, voltei para São Paulo, terminei a primeira faculdade, arrumei um emprego que me tornou totalmente independente, depois arrumei outro e mais outro, fiz a segunda faculdade, ingressei no mestrado, ganhei uma bolsa de estudos, terminei o mestrado, ingressei no doutorado, consegui outra bolsa... Enfim, estou fazendo o meu caminho até o portão. O melhor é que também me casei no intervalo, sem que isso significasse perda da independência.
Não ignorem seus sonhos. Eles trazem mensagens divinas.